Governo
quer lançar 'carteira eletrônica'
20/03/2008
Cartão magnético com informações
trabalhistas substituirá versão em papel; mudança
deve começar em maio em 6 Estados.
Troca será gradual, pois há quase 30 milhões
de pessoas com carteira assinada; foco é combater fraudes
e cortar despesas com benefícios
O Ministério do Trabalho planeja lançar em 1º de
maio o cartão eletrônico que substituirá a
carteira profissional de trabalho em papel -que completa 76
anos neste mês. A idéia é apresentar o
cartão durante as festas comemorativas pelo Dia do Trabalho
das principais centrais sindicais do país.
O projeto, ainda em elaboração na área
técnica do ministério, prevê a substituição
gradual das carteiras em papel. O governo já sabe que
não há como trocar de uma só vez os documentos
de pelo menos 29 milhões de brasileiros com carteira
assinada no país que constam na base de dados do Caged
(Cadastro Geral de Empregados e Desempregados) do ministério.
Sem falar que cada trabalhador pode ter mais de uma carteira,
o que eleva para mais de 60 milhões o número
de carteiras de trabalho emitidas.
Os cartões eletrônicos devem ser inicialmente
implementados em seis Estados (SP, RJ, MG e mais três
das regiões Norte e Nordeste) em substituição
a parte dos 6 milhões de novos documentos emitidos a
cada ano, segundo estima o ministério. Só no
Estado de São Paulo foi emitido 1,129 milhão
de carteiras no ano passado.
“A carteira é um documento simbólico,
que já foi inclusive usada como atestado de bons antecedentes.
Mas hoje traz problemas. O trabalhador precisa entregar o documento
original para a Previdência Social, por exemplo, ao pedir
a contagem do tempo para aposentadoria. E corre o risco de
perder o documento. Seria um avanço conseguir reunir
a base de dados do Ministério do Trabalho e da Previdência”,
diz Luis Carlos Moro, advogado trabalhista.
O que está em estudo, por enquanto, é que a
carteira reúna informações só da área
trabalhista -como dados de admissão e demissão,
tempo de serviço, abono salarial e seguro-desemprego.
Com o cartão, o governo quer atualizar informações
dos trabalhadores com mais agilidade para aperfeiçoar
o pagamento de benefícios e, assim, economizar recursos.
Hoje, as informações do Caged são atualizadas
no prazo de 37 dias -porque a lei determina que as empresas
informem dados referentes a contratações e demissões
até o dia 7 do mês subseqüente. Esse prazo
dificulta, por exemplo, saber se um trabalhador que foi demitido
e tem direito ao seguro-desemprego já retornou ao mercado
de trabalho e deveria, portanto, ter o benefício suspenso.
No ano passado, o governo gastou R$ 12,49 bilhões só com
o pagamento de seguro-desemprego -21% a mais do que em 2006.
A previsão para este ano é gastar cerca de R$
15 bilhões.
Agilidade
“ Com o cartão, pode haver desburocratização e agilidade
nos serviços, o que é positivo. É preciso, entretanto, discutir
a inclusão de dados previdenciários nesse novo documento. Vamos
pedir uma reunião das centrais com o governo para discutir isso”,
diz Ricardo Patah, presidente da UGT (União Geral dos Trabalhadores).
“O que não pode haver é custo para o trabalhador”,
afirma Wagner Gomes, presidente da CTB (Central de Trabalhadores
e Trabalhadoras do Brasil), central recém-criada. Armando
Monteiro Neto, presidente da CNI (Confederação
Nacional da Indústria), diz não ver barreiras à modernização. “As
empresas poderão se adaptar.”
Empresas de tecnologia de informação dizem que,
do ponto de vista tecnológico, não é complicado
criar o cartão eletrônico, mas requer tempo para
as empresas adaptarem seus sistemas. “Vejo mais problemas
na logística. O país terá de conviver
com dois modelos, o eletrônico e o papel, por um tempo”,
diz Luis Marques de Azevedo, sócio da Hint Consultoria.
Para ele, o governo poderia embutir no novo cartão dados
pessoais do trabalhador, como os do título de eleitor
e até mesmo de saúde. Nos países nórdicos,
afirma, os trabalhadores possuem um cartão que reúne
dados dos sistemas previdenciário e de saúde.
A Fecomercio (Federação do Comércio do
Estado de SP) avalia que um dos benefícios será o
combate a fraudes. “Casos como os de falsas carteiras
e desvio de valores do FGTS e outras contribuições
poderiam ser detectados rapidamente. O trabalhador passaria
a ser um fiscal de seus direitos”, diz Luis Antonio Flora,
diretor da assessoria jurídica da entidade.
Fonte: CLAUDIA ROLLI - FÁTIMA
FERNANDES - Folha de São Paulo
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